sexta-feira, 22 de maio de 2009


A vida exibia-se à nossa frente, bastava estender as mãos para tocá-la. Atravessar com os dedos o véu que envolve o mundo. A névoa, tocada com muito cuidado, com medo de ser desfeita, foi descortinada aos poucos. As imagens faziam-se mais adivinhar que ser vistas.

E fomos imaginando as sombras do que víamos, envolvemo-nos na névoa azul do mundo. Fizemos parte dela. E fechamos os olhos para tocar o que já só adivinhávamos. Erramos e acertamos, trocamos às vezes de lugar. A cortina azul colou-se à nós. Não sabíamos mais enxergar sem ela.

terça-feira, 12 de maio de 2009

A Desenhista

por Maia

Ela desenha como se só contornasse as formas. Porque tudo está traçado. Cada espaço em branco numa página são centenas de milhares de desenhos, imagens, animais, plantas, crianças... Tudo está desenhado já em sua cabeça, basta contornar com tinta (uma que os outros também possam ver).

Às vezes, porém, ela tem preguiça de tanto contornar. Se já consegue ver todos os desenhos sem precisar de lápis e papel. Seu desenho animado particular (e que animado!).

Mas desenhista, querida, não seja tão egoísta! Faça contornos para nós!!! Eu não enxergo sua tinta mágica. O branco do mundo, para mim, não passa de vazio do mundo. E as minhas palavras, nem essas, são só passadas a limpo. Saio à busca das letras, uma a uma, penosamente unidas.
Redemption Song
Bob Marley

Old pirates, yes, they rob I;

Sold I to the merchant ships,
Minutes after they took I
From the bottomless pit.
But my hand was made strong
By the 'and of the Almighty.
We forward in this generation
Triumphantly.
Won't you help to sing
These songs of freedom? -
'Cause all I ever have:
Redemption songs;
Redemption songs.

Emancipate yourselves from mental slavery;
None but ourselves can free our minds.
Have no fear for atomic energy,
'Cause none of them can stop the time.
How long shall they kill our prophets,
While we stand aside and look? Ooh!
Some say it's just a part of it:
We've got to fulfil de book.

Won't you help to sing
These songs of freedom? -
'Cause all I ever have:
Redemption songs;
Redemption songs;
Redemption songs.


Emancipate yourselves from mental slavery;
None but ourselves can free our mind.
Wo! Have no fear for atomic energy,
'Cause none of them-a can-a stop-a the time.
How long shall they kill our prophets,
While we stand aside and look?
Yes, some say it's just a part of it:
We've got to fulfil de book.
Won't you help to sing
Dese songs of freedom? -
'Cause all I ever had:
Redemption songs -
All I ever had:
Redemption songs:
These songs of freedom,
Songs of freedom.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Você já foi chicoteado hoje?

Não, eles não fizeram nada de mais. Os funcionários só aplicaram a política da empresa para com os passageiros, presenciada diariamente por eles. Chutar e chicotear as pessoas pode até ter sido iniciativa deles, mas foi apenas uma derivação, lógica, da prática de transporte público que vivenciam. Para conter animais, o chicote. Para transportá-los, o mínimo necessário.

Amontoados o máximo possível, são animais de pouco valor, que podem levar horas para realizar seu percurso, que não precisam de grandes garantias de segurança nem de muito ar. A atitude desses funcionários não nasceu do nada, não foi criação de mentes insanas e sem contato com a realidade, pelo contrário, foi resultado de sua larga experiência.

Não conheço a situação específica do Rio de Janeiro, mas não deve ser muito diferente da paulistana e da maioria das grandes cidades que seguem este modelo de "desenvolvimento". Até o ano passado, diversos trens (como os da linha F) da CPTM ostentavam tábuas de madeira remendando os buracos de seu piso. Tábuas tábuas, das mais comuns, presas com preguinhos e fazendo grandes desníveis no chão, já que eram postas apenas em cima dos buracos. Nos horários de pico, a insistência por viajar de portas abertas não era só gosto pelo perigo: abertas, as portas permitiam que um pouco mais de ar entrasse nos trens lotados e, convenhamos, respirar ainda é algo importante para a maioria das pessoas. Isto sem falar nas goteira quando chovia ou do uso de drogas dentro do vagão.

Há pouco tempo esses trens foram reformados, a lotação absurda de alguns horários e a demora da viagem, entretanto, não sofreram alterações. A reforma, tardia, só veio com a USP Leste e a estação de trem construída para atender ao público universitário. Para os antigos freqüentadores da linha, as mudanças não eram, afinal, tão necessárias. Cidadãos de terceira classe acostumam-se facilmente ao transporte de quinta.

Também é curioso quando comparamos estes trens com os que circulam entre a zona oeste e sul de São Paulo: mais novos e com intervalos bem menores, além de possuírem ar condicionado e música ambiente. Curiosamente, são os trens que levam ao Morumbi, à Vila Olímpia e à Rebouças, entre outras regiões consideradas mais nobres da cidade. Ainda têm problemas e são bastante cheios nos horários de maior fluxo, mas nada que se compare à situação dos trens da linha F, por exemplo.

O tratamento reservado aos passageiros de transporte coletivo, entretanto, não merece jornais, não recebe declarações indignadas do ministro, não é uma desumanidade. O governo Serra, ao contrário, utiliza as imagens dos trens em péssimo estado que circularam durante anos e anos nas gestões PSDB para mostrar o "antes e depois" de sua reforma. Esquecem que foram eles mesmos que deixaram a situação chegar naquele estado. Ah, sim, como eu podia esquecer? Não há mais linha F ou variante. Agora o nome da linha é Safira. Mas não posso reclamar, sempre apreciei a ironia e uma dose de humor negro.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O Índio do 409



O índio sempre existiu ali na parede, mas faz pouco tempo que tivemos conhecimento de sua importância e valor simbólico. Atrás na madeira está o nome de muitos que moraram no local, nomes de, pelo menos, 2o anos atrás. Todos preservaram o índio ali, como uma espécie de "Guardião do 409". Agora chegou nossa vez de ir e vamos deixar nossos nomes no índio também. Será que quem fica e quem vem manterá o guardião? Ou devemos levá-lo conosco para que ele não seja jogado no lixo e perca sua função de manter viva a memória de um lugar que serviu a tantos. Mas levá-lo embora também não representaria sua morte?

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Marchons!

Que qualquer manifestação realizada em São Paulo só vira notícia porque "atrapalhou o trânsito" e "causou grandes congestionamentos na cidade" não é novidade para ninguém. Ainda assim, não dá para não comentar a última da Folha de São Paulo.

Na quinta-feira (26) uma vídeo-reportagem da Folha Online mostrou os protestos de "cerca de 15 pessoas" contra a prisão da dona da Daslu, Eliana Tranchesi - condenada, segundo a própria reportagem, por sonegação fiscal, formação de quadrilha e falsificação de documentos. O jornal se deu ao trabalho de enviar um repórter para cobrir o protesto de 15 pessoas!! Protesto, álias, que não durou mais de 15 minutos - provavelmente o tempo que o jornalista esteve presente no local (é, a janela do escritório tem uma visão privilegiada da região). A matéria só não contou se são só 15 mesmo os beneficiados pelos projetos sociais da Daslu (ou quanto cada participante recebeu para estar ali).

Já na segunda (30), a chamada do UOL linkando pra Folha Online não deixou dúvidas, uma manifestação atrapalhava o trânsito da Paulista. 14 horas não é horário de pico, protestos contra a crise vêm sendo realizados em todo o mundo, o futuro da economia preocupa a todos, mas não importa: prejudicaram o trânsito, esta instituição paulistana. Sim, prejudicaram porque "cerca de 4 mil pessoas" não são 15, não dá pra andar na calçada.

Que se proiba de vez qualquer manifestação que mereça este nome, defendem parados em seus carros, ar condicionado no último, os paladinos do trafégo. No que depende da abordagem de grande parte da imprensa já não somos mesmo informados sobre os motivos dos protestos. Manifestação para quê? Se só existe um modelo correto, uma economia possível, uma beleza universal, um modo de vida válido...

Marchons!

sábado, 27 de dezembro de 2008

Um dia o dia ficou cinza. E não voltou mais.

Não era aquele cinza que precisa quase fechar os olhos para não entrar poeira. Nem aquele azulado, frio, de ares do norte. Também não era grafite, forte, dramático. Era cinza, e não se ia.

E não adiantava esperar mais. Era preciso colorir o dia - folha a folha. E plantar flores no asfalto.

Aí foi preciso criar, fazer essa beleza imperfeita que precisa ser reconstruída todos os dias e mais de uma vez por dia. Perdeu-se o encanto natural das coisas simples que nascem prontas e restou-nos essa outra beleza, exigente e cansativa, mas que tem a graça de ter sido feita por nós.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Solteagarra

Era uma vez, num país não tão distante, um lobo que atacou a chapeuzinho vermelho. O jovem guarda florestal, ao descobrir o que se passava, correu para salvar a menina.

Agora, entretanto, todos os jornais publicaram que o salvamento só foi possível com a ajuda de um aposentado guardião da floresta, o curupira. A folclórica entidade também é acusada de ter lido uma carta endereçada ao lobo sem a devida autorização.

A justiça não pôde deixar este caso de comoção nacional passar batido e correu para devolver a garota às garras do lobo. As informações que a livraram deste pesadelo infantil, afinal, haviam sido obtidas de maneira ilegal: além da carta, o curupira é aposentado. Ou alguma criança ainda sabe o que é isso?

O guarda, frustrado, responde a inquérito e pôs de volta no bolso o inspirado nome de sua recente operação – Solteagarra.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008



"A arte permite uma compreensão subjetiva de si, além do conhecimento racional a que estamos acostumados, que exige o domínio de normas e estruturas pré-fixadas. Ela permite um outro tipo de conhecimento, emocional, um que o sentir da obra de arte é mais importante que o entendê-la racionalmente.

Fútil é tentar apreender da obra apenas o seu aspecto mais objetivo, a conexão do artista com os seus sentimentos, com o mundo e com o outro não se dá desse modo. A arte faz parte de um tipo peculiar de conhecimento, em que não é, necessariamente, quem mais a domina que a sentirá com mais força e arrebatamento. O conhecimento dos próprios sentimentos, do mundo e da vida é mais importante para um entendimento profundo da obra do que o domínio de suas técnicas e escolas.

Arte é sentir o mundo!"

Olivia

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Depois de uma certa idade era o exercício de desaprender. O sentido evolutivo da vida parecia não fazer mais sentido: nem mais sábios, nem mais fortes, nem mais maduros. O peso dos anos dificultava o passo e confundia a memória.
As novidades cada vez mais complexas e o mundo de onde nascemos tão outro deste: simples, distante e a pertencer a cada vez menos gente.
A lição final seria a humildade. Este constante aprender a não saber.